Home Descobrir Cinema Como ‘Sexta-Feira 13’ se tornou um fenômeno?
Como ‘Sexta-Feira 13’ se tornou um fenômeno?

Com 12 filmes em toda a saga, Jason Voorhees foi um dos principais elementos que ajudaram a estabelecer o terror no século 20

CINÉFILOS
13 ago 2021 | Por Júnior Vieira (jvsanjunior@usp.br)

O terror slasher é conhecido por sua fácil construção. Geralmente, por contarem com um baixo orçamento, possuem um desenvolvimento técnico não tão engenhoso e um roteiro pouco complexo, atendendo a uma demanda mais comercial da indústria. Popularizado nos anos 1980, diversos clássicos do audiovisual se encontram dentro do gênero, como O Massacre da Serra Elétrica (The Texas Chain Saw Massacre, 1974), Halloween – A Noite do Terror (Halloween, 1978) e Sexta-Feira 13 (Friday the 13th, 1980). Esse, com um investimento de apenas US$550.000, conseguiu arrecadar US$59,7 milhões nas bilheterias mundiais e deixou sua marca registrada no mundo cinematográfico.

Dirigido por Sean S. Cunningham e escrito por Victor Miller, o primeiro Sexta-Feira 13 nasceu como uma tentativa de ganhar dinheiro pegando carona no sucesso de Halloween – A Noite do Terror. O longa é ambientado em Crystal Lake, que possui um passado sanguinário. Ainda que tenha diversos registros de homicídios ocorridos no local, isso não impede um grupo de jovens adultos de reabrir um acampamento de verão no bosque. À medida que novos instrutores chegam, um misterioso assassino os persegue e os elimina um por um.

O longa de Cunningham, inicialmente, recebeu avaliações majoritariamente negativas devido ao conteúdo violento representado. Contudo, por conta do ótimo suspense construído no filme — algo que foi raramente trabalhado nas sequências —, Sexta-Feira 13 foi adotado de imediato pelo público jovem. Vale ressaltar que o plot twist da obra gira em torno do fato de que o assassino, na verdade, é Pamela Voorhees (Betsy Palmer), mãe de Jason. Por conta da negligência de monitores durante a morte de seu filho anos atrás, a personagem enlouquece e passa a ter um desejo constante de vingança. 

Uma grande curiosidade para aqueles que vão assistir ao filme pela primeira vez é que o Jason Voorhees popularizado pela cultura pop não aparecerá tão rápido assim. Sendo sua mãe a primeira serial killer da franquia, o espectador assiste a uma surpreendente revelação; ponto positivo para a saga. No entanto nem mesmo Palmer acreditava no potencial da obra, visto que a mesma só aceitou o papel por conta da necessidade de comprar um carro.

 

Pamela, uma mulher branca de cabelos loiros, usa uma blusa de crochê azulada e aparece olhando algo assustada em meio ao escuro

Pamela Voorhees durante o confronto final. [Imagem: Reprodução/Paramount Pictures]

Ainda que incertos sobre o futuro do longa, é apresentado um final que deixa um gancho para uma possível continuação. “Ele ainda está lá”, diz Alice, a primeira final girl da franquia, após derrotar Pamela e tirar um cochilo no lago onde nosso futuro antagonista foi assassinado. Após obter uma receita 100 vezes maior que o seu orçamento, já era esperado que a Paramount Pictures, distribuidora do filme, iniciaria a produção de uma sequência.

Algo que se deve deixar claro quando se trata da franquia é que inovações de enredo são raramente adotadas pelos roteiristas. “Acho que os filmes do Sexta-Feira 13 têm uma sinceridade que eles são só sobre o espetáculo”, afirma Oswaldo Marchi, criador do canal Trasheira Violenta. “O primeiro ainda tem um elemento de suspense e mistério, mas as continuações são filmes que são feitos apenas para diversão e entretenimento do público de filmes de terror.”

Assim, não espere que Sexta-Feira 13 – Parte 2 (Friday the 13th Part II, 1981) e Sexta-Feira 13 – Parte 3 (Friday the 13th Part III, 1982) apresentem mudanças significativas quanto ao antecessor. A primeira sequência é conhecida por trazer, pela primeira vez, Jason Voorhees como o assassino principal. O último, por mais que possua efeitos em 3-D um tanto mal executados, é importante para a saga já que, nesse, Jason entra em contato com a máscara de hockey que seria imortalizada na história do terror. “Eu acho que seu visual é bem imponente e é uma mistura de elementos muito comuns: um cara grandão com uma máscara de hockey e um facão”, responde Lucas Maia, criador do canal Refúgio Cult, quando perguntado o porquê de Voorhees ser um personagem tão icônico. “Tem toda a mitologia da sexta-feira 13, que ganhou mais significado com o filme e o personagem. Isso eternizou.”

 

No segundo Sexta Feira 13, Jason aparece com um saco cinzento em sua face, com um buraco para o olho, e mune um machado para atacar suas vítimas.

Visual de Jason Voorhees em Sexta-Feira 13 – Parte 2. [Imagem: Reprodução/Paramount Pictures]

O encontro de Sexta-Feira 13 e o trash

Quando se pensa nos longas pertencentes à franquia, é impossível não pensar no trash. Caracterizado por sua falta de qualidade técnica ou visual, o gênero pode ser bem executado quando o roteiro possui aspectos que divertem e entretêm o espectador. Filmes como Apertem os Cintos… o Piloto Sumiu! (Airplane!, 1980) e Todo Mundo em Pânico (Scary Movie, 2000) são ótimos exemplos de como a autoconsciência do humor escrachado da produção pode levá-los ao sucesso.

Por muito tempo, Sexta-Feira 13 tentou se levar a sério demais. Os cinco primeiros filmes que abrem a saga, ainda que possuam um certo alívio cômico em determinadas cenas, são muito apegados com o conceito assustador do terror, fator que dava um aspecto entediante aos longas. No entanto, com Sexta-Feira 13 – Parte 6: Jason Vive (Friday the 13th Part VI: Jason Lives, 1986), o diretor Tom McLoughlin assume o conceito trash e introduz elementos de humor, ação e numerosos exemplos de quebra da quarta parede. Para Marchi, esse é o melhor filme da franquia: “Não só ele tem o Jason zumbi clássico, mas ele tem uma pegada de terror comédia autoconsciente que pavimentou o caminho para filmes como a franquia Pânico.”

 

Em Sexta-Feira 13 - Parte 6, em meio à chuva, Jason aparece com a máscara branca esburacada pela qual é reconhecido popularmente e mune uma lança para os ataques.

A partir do sexto Sexta Feira 13, o antagonista passou a ter seu visual estabelecido. [Imagem: Reprodução/Paramount Pictures]

Ao fugir da sobriedade cansativa de seus antecessores, Sexta-Feira 13 alcança um dos seus pontos mais altos. Não é à toa que, pela primeira vez desde o lançamento da obra de 1980, uma produção da franquia recebeu críticas positivas da mídia especializada. “Até então, o Jason não era aquela coisa muito sobrenatural. Eles conseguiram fazer uma coisa legal que revitalizou a franquia”, afirma Lucas. Contudo McLoughlin não permaneceu no comando das sequências, e, a partir daqui, Jason Voorhees testemunha sua queda.

 

O declínio de Jason

Após Sexta-Feira 13 – Parte 6: Jason Vive, era perceptível um certo esforço da produtora para dar uma nova atmosfera à franquia. Assistindo aos lucros dos filmes caírem cada vez mais, a Paramount Pictures até tentou entrar em um acordo com a New Line Cinema, dona dos direitos de A Hora do Pesadelo (A Nightmare on Elm Street, 1984), para que um crossover entre Jason e Freddy Krueger fosse realizado, mas, por um longo período, tal conceito não chegou a ser concretizado. Desde então, os brainstormings para o desenvolvimento dos roteiros eram absurdos, e quando colocados em prática, o resultado era decepcionante.

Inspirados por uma estética semelhante ao de Carrie – A Estranha (Carrie, 1976), foi lançado Sexta-Feira 13 – Parte 7: A Matança Continua (Friday the 13th Part VII: The New Blood, 1988). O enredo tentava reverter a frágil característica das final girls que antecederam a saga ao trazer Tina, uma protagonista com poderes telecinéticos que auxiliariam-na a combater o serial killer. Já era sabido que, nesse ponto, Sexta-Feira 13 não tentava ser uma obra prima. Na parte 7 da série, ainda que esteja longe de ser uma das melhores da franquia, o espectador ainda consegue se divertir com algumas cenas. Porém, a partir daqui, “os pontos positivos só param de existir”, segundo Oswaldo.

Com Sexta-Feira 13 – Parte 8: Jason Ataca em Nova York (Friday The 13th Part VIII: Jason Takes Manhattan, 1989) e Jason Vai Para o Inferno: A Última Sexta-Feira (Jason Goes to Hell: The Last Friday, 1993), Voorhees termina os anos 90 com seus piores lançamentos até a atualidade. No primeiro, ao tentar retirar pela primeira vez o foco de Crystal Lake, Rob Hedden dirige um filme que não consegue fazer jus nem ao próprio nome, visto que, por conta dos custos de produção, apenas 30 minutos do filme se passam realmente em “Nova York” — entre aspas, pois as filmagens ocorreram no Canadá.

 

Jason, com a máscara e roupas azuladas, aparece em meio à Times Square, cheia de luzes e propagandas em telões.

No oitavo Sexta Feira 13, o antagonista passando pela Times Square na parte 8 da série. [Imagem: Reprodução/Paramount Pictures]

Em seguida, após a venda dos direitos do personagem para a New Line Cinema, Jason Vai Para o Inferno: A Última Sexta-Feira entrega uma trama bagunçada que divide negativamente a opinião dos fãs da série. “Comecei por talvez o pior filme, ou um dos piores”, declara Maia ao relembrar que, aos 12 anos, esse foi o primeiro lançamento da saga que assistiu. “Eu achava o máximo na época, já era entusiasmado pelo terror e tinha aquele medinho do Jason.”

Trazendo uma mitologia acerca do antagonista que quase plagia Uma Noite Alucinante – A Morte do Demônio (The Evil Dead, 1981), a produção desorganiza toda a história do vilão que foi construída com o decorrer da saga. Não que coerência tenha sido a principal meta de Sexta-Feira 13 durante seus lançamentos, mas a adição de uma atmosfera paranormal que envolve a criação de uma meia-irmã e uma sobrinha Voorhees não contribuiu em nada para a tentativa de reconquistar o lucro extraordinário assistido em 1980.

 

Sexta-Feira 13 nos anos 2000

A ideia de um crossover entre Sexta-Feira 13 e A Hora do Pesadelo sempre foi algo que animou os fãs do terror, e, após a venda dos direitos de Jason Voorhees para a New Line Cinema, o desenvolvimento da produção finalmente teve início.

O nono filme da série termina com Freddy Krueger capturando a máscara de Jason após ele ser assassinado no embate final. Com um ótimo gancho, no entanto, os produtores passaram anos com o projeto paralisado. Assim, para que o interesse do público no personagem permanecesse, Sean S. Cunningham decidiu lançar Jason X (Jason X, 2001). Para evitar uma possível confusão na continuidade da saga, o longa se passa em 2455, onde o antagonista invade uma nave espacial e realiza um massacre contra os tripulantes. Aqui, os diretores possuem ciência da qualidade duvidosa da obra e assumem o teor trash da produção. “É um guilty pleasure, né? Ele é ruim, mas como não se leva muito a sério, é mais divertido”, comenta Lucas.

Então, após 16 anos do início das especulações, Freddy x Jason (Freddy vs. Jason, 2003) finalmente chegou aos cinemas mundiais. Com uma arrecadação de cerca de US$114,9 milhões, o longa foi um sucesso e agradou a muitos fãs de ambas as franquias. “Nada mais justo eles terem um filme de um contra o outro porque, de fato, eles estão entre os maiores ícones”, afirmou Maia. Mesmo que tenha recebido avaliações mistas da crítica especializada, o filme entretém, não decepciona nas cenas de confronto entre Krueger e Voorhees e possui um humor ácido que diverte aos espectadores — além de ter Kelly Rowland, ex-Destiny’s Child, interpretando uma das melhores coadjuvantes de toda a saga.

 

Em meio a um local em chamas, Jason, vestindo trapos marrons e munido de um machado, aparece frente a frente com Freddy, com chapéu, rosto desfigurado, camiseta listrada vermelha e preta e calça cinza.

Cena de luta entre Freddy e Jason. [Imagem: Reprodução/Paramount Pictures]

Os anos 2000, por outro lado, ficaram marcados pelos remakes sombrios de filmes clássicos de terror. O Massacre da Serra Elétrica, Quadrilha de Sádicos (The Hills Have Eyes, 1977), Halloween e A Morte Convida para Dançar (Prom Night, 1980), por exemplo, tiveram suas releituras lançadas em 2003, 2006, 2007 e 2008, respectivamente. É claro que um dos maiores vilões da história do cinema não ficaria de fora dessa.

Sexta-Feira 13 (Friday the 13th, 2009) foi dirigido por Marcus Nispel, o mesmo diretor de O Massacre da Serra Elétrica (The Texas Chain Saw Massacre, 2003), e segue a mesma linha do terror do início do século 21. É lotado de cenas gore, jump scares, estereótipos juvenis e uma fotografia extremamente escura. “Eu não acho que é um filme terrível, ele só é mais clichê e não traz tanta coisa nova”, avaliou Maia. 

Com efeitos técnicos bem desenvolvidos, o longa não apresenta grandes inovações quanto aos seus antecessores, até porque, “os filmes do Sexta-Feira 13 são praticamente vários remakes da mesma história”, afirma Marchi. A tentativa de retornar ao aspecto sombrio de Jason Voorhees talvez não agrade a todos. Contudo os US$91,3 milhões arrecadados nas bilheterias foram uma ótima maneira de concluir a série. 

 

A influência de Sexta-Feira 13 na cultura pop

O impacto de Sexta-Feira 13 alcançou diversas outras mídias além da cinematográfica. Sexta-Feira 13 – O Legado (Friday the 13th – The Series, 1987), por exemplo, foi um seriado canadense exibido até 1990. Ele não possui nenhuma conexão direta com a história de Jason Voorhees, aproveitando-se do nome da saga para atrair o público. O show televisivo foi cancelado em sua terceira temporada e não foi bem recebido pela crítica — a única relação de coerência com os filmes da franquia que estavam sendo lançados naquele período.

Jason também é protagonista de inúmeras histórias em quadrinhos. Sua estreia aconteceu em 1993 em uma adaptação de Jason Vai Para o Inferno: A Última Sexta-Feira. Com uma maior liberdade permitida para a construção dos enredos, Voorhees já enfrentou Leatherface, de O Massacre da Serra Elétrica, Ash Williams, de Uma Noite Alucinante – A Morte do Demônio, e até mesmo sua versão futurista desenvolvida em Jason X.

 

Jason aparece com uma máscara metalizada e olhos vermelhos.

Design preparado para o vilão em Jason X. [Imagem: Reprodução/Distribuição: New Line Cinema]

Lançado em 2017, Friday the 13th: The Game é um jogo eletrônico do gênero survival que acompanha até 7 monitores lutando contra Voorhees no acampamento Crystal Lake. O projeto possui Cunningham como um dos produtores e foi uma ótima maneira de aproximar a série de filmes e a atual geração.

“Acho que a essa altura o Jason Voorhees já está no nível de personagens tipo Darth Vader e Spock na cultura pop”, declara Oswaldo. Passados 12 anos desde o último filme, o antagonista permanece sendo um dos maiores nomes do gênero e ainda consegue se reinventar perante às transformações midiáticas. Mesmo que seu background seja repleto de clichês e técnicas cinematográficas discutíveis, é inegável o fato de que Voorhees é um dos maiores representantes do terror slasher.

Em 2017, rumores de que um reboot da série estava sendo produzido começaram a surgir. No entanto embates jurídicos que envolvem Victor Miller e a batalha pelos direitos de vários elementos da franquia impedem que uma nova continuação seja lançada. Assim, o que resta são as expectativas para o desenvolvimento do próximo roteiro. “O que mais pode diferenciar a franquia é uma mudança do “grupos de jovens indo passar o verão em Crystal Lake”, sugere Oswaldo Marchi. “Eu gostaria de ver uma equipe de filmagem indo gravar um filme no Crystal Lake e sendo atacada pelo Jason.”

“Há uns anos soltaram na mídia que o próximo seria um found footage. Não acho uma má ideia, caso seja bem aproveitada”, indicou Lucas. “Que tragam elementos novos bem fundidos com esses elementos antigos. Eu faria algo desse tipo”. Independente da trama, o único consenso existente é de que Voorhees deve continuar realizando seus ataques contra jovens, seja em Crystal Lake, em uma cidade grande ou no espaço. Afinal, essa é a essência e a identidade de Sexta-Feira 13.

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