Por Grazielli Costa (grazielli.hcosta@usp.br), Helena Brambilla (helenacbrambilla@usp.br), Hugo Boff (hugoboff@usp.br)
Entre os meses de junho e julho ocorre a Copa do Mundo de 2026, sediada por três países: EUA, Canadá e México. Desde o início das movimentações das demais seleções rumo aos países sede, interesses desconectados do mundo da bola influenciam diretamente na chegada das comitivas.
Pela primeira vez na história do mundial, um dos anfitriões – os EUA – está ativamente em guerra e envolvido em ofensivas militares. O conflito iniciado no fim de fevereiro envolvendo a potência estadunidense, Israel, Irã e outros países, como o Paquistão, cria um cenário de tensão que abre margem para a atuação de políticas muitas vezes interpretadas como xenofóbicas por especialistas.
“Os EUA têm essa corrente de pensamento xenofóbica e de preconceito religioso, que ganha atração e que hoje está dentro do cérebro do governo Trump.”
Prof. Dr. Rodrigo Accioli Almeida, doutor em Geografia Humana e pesquisador sobre futebol
A importação da guerra para os gramados
Em meio às crises envolvendo a guerra entre os Estados Unidos e o Irã, a seleção iraniana terá tempo limitado para se manter no território estadunidense durante os jogos. Após a recusa dos EUA em conceder vistos para alguns membros da comissão técnica iraniana, a equipe terá que entrar e sair do território americano em um intervalo de poucas horas antes e depois dos jogos.
A Federação de Futebol do Irã acusa os EUA de aplicarem um “comportamento vingativo”. Como resposta ao cenário de incerteza na documentação, a delegação iraniana realocou suas acomodações para Tijuana, no México, ao invés do estado do Arizona, local em que a seleção se hospedaria para os treinamentos, até então.
Na tentativa de apresentar a comissão completa, a delegação iraniana conseguiu até o momento a emissão de 4 dos 15 vistos inicialmente negados pelos Estados Unidos. Às vésperas da estreia contra a Nova Zelândia, em Inglewood, Califórnia, que aconteceu nesta segunda-feira (15), a comissão segue incompleta. Em depoimento, a Federação de Futebol do Irã alegou à Reuters que os desafios legais “efetivamente privaram a seleção iraniana da oportunidade de competir em condições de igualdade e em uma competição livre de discriminação”.
A dificuldade de tocar o solo americano durante a Copa do Mundo afetou não apenas a equipe, mas também diversos torcedores que foram impedidos de entrar nos EUA. Em entrevista à Jornalismo Júnior, o técnico iraniano de futebol, Koosha Delshad, afirma que a modalidade chega a reunir mais de 80 mil torcedores nos estádios para acompanhar clássicos nacionais ou partidas da seleção. Para ele, a opinião da sociedade iraniana em relação aos vistos negados à torcida é dividida. Delshad alega que tal ação, ao mesmo tempo em que barra diversos torcedores apaixonados pelo esporte, impede também a entrada daqueles alinhados à república teocrática.
De acordo com a AFP (Agence France-Presse), o presidente da Federação Iraniana de Futebol, Mehdi Taj, afirmou que a FIFA deve garantir o respeito aos símbolos nacionais durante as partidas, como cantos e bandeiras. Para Delshad, a estreia da seleção, por acontecer em uma cidade que abriga a diáspora iraniana mais populosa do mundo, será palco para manifestações de oposição ao regime atual. O técnico destaca a possibilidade de protestos, como a utilização da bandeira anterior à Revolução Islâmica de 1979 pela torcida, vaias e até torcedores virados de costas durante a exibição do hino cantado no início dos jogos.

Segundo o professor Rodrigo Accioli Almeida, doutor em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo e pesquisador sobre futebol, a política de Donald Trump busca, por meio do ICE (Agência Nacional de Imigração e Alfândega), criar a ideia de um inimigo comum, que justifique a violência e a perseguição praticada contra certos grupos, como latinos e iranianos. Accioli também pontua à Jornalismo Júnior que as proporções gigantescas do evento tendem a espetacularizar as perseguições, de modo que formas de violência sejam propositalmente transformadas em entretenimento.
O melhor da África não vai apitar
O árbitro somali Omar Artan, convocado pela FIFA para ser um dos juízes da Copa do Mundo, foi impedido de entrar nos EUA. Artan contou ao The New York Times que chegou ao país pelo Aeroporto Internacional de Miami no dia 06 de junho e ficou detido para interrogatório durante 11 horas. Segundo ele, ligação com o grupo militante al-Shabaab, o qual é aliado da Al-Qaeda, foi o principal tema abordado pelos agentes de imigração. Essa foi a mesma justificativa dada pela administração do governo à Fox News para barrar a entrada. Apesar dessas afirmações, o governo americano não apresentou provas concretas que demonstrassem a ligação entre o árbitro e o grupo militante.

[Imagem: Reprodução/Instagram/@omar_artan]
Em junho de 2025, o presidente Trump aplicou restrições totais de viagens a 12 países, o que significa a suspensão de emissão ou uso de vistos para entrada no país. A justificativa apresentada pelo presidente americano durante uma reunião administrativa foi que “eles [somali] não têm nada, apenas matam-se uns aos outros”.
Referente à falta de provas dadas pelo governo americano para deter o Omar Artan, o professor afirma que “se é um Estado de Direito tem que ter investigação, juiz e uma série de coisas para você provar”. Ele ainda adiciona que “tinha tudo para ser um dos principais árbitros dessa Copa do Mundo e foi simplesmente arrasado pela imigração em condições que eu considero sob humanas”.
“O juiz e um jogador foram detidos, seleções paradas no chão do aeroporto tomando sol. Tudo isso é espetáculo também, só que um e espetáculo de demonstração de força para todo o globo assistir.”
Prof. Dr. Rodrigo Accioli Almeida, doutor em Geografia Humana e pesquisador sobre futebol
O herói iraquiano
O jogador iraquiano Aymen Hussein colocou o Iraque dentro da Copa do Mundo após 40 anos sem a participação do país no torneio. Hussein foi responsável pelo gol de vitória contra a Bolívia nos jogos de repescagem e, desde então, é considerado o ‘herói do Iraque’.
Segundo a agência de notícias Shafaq News, ao chegar aos EUA, o jogador foi detido no aeroporto de Chicago e passou por um interrogatório de sete horas. Até o momento, o governo americano e a Federação Iraquiana de Futebol optaram por não se pronunciar sobre a situação.

Hussein não tinha ligação direta com a Al-Qaeda, mas seus familiares foram vítimas do terrorismo. Seu pai foi morto em 2008 pelo grupo e, seis anos depois, seu irmão foi sequestrado pelo Estado Islâmico e até hoje não foi encontrado.
Sobre o tratamento do serviço de imigração com Hussein, Accioli comenta que “Rafael Videla (General membro da ditadura argentina) declarava que você não tinha só que interrogar e torturar os culpados, tinha que torturar e interrogar também os inocentes, porque aí você cria uma sensação de poder muito maior”.
Mudanças no uniforme
Acostumada a estampar em sua camisa as estrelas conquistadas na Copa Africana de Nações, a seleção egípcia foi obrigada a mudar parte do design feito pela Puma para seu uniforme. Originalmente, o uniforme vermelho dos titulares (home kit) contava com sete estrelas e o número de cada jogador nas costas, em dourado. Entretanto, a FIFA solicitou a remoção das estrelas e a troca da cor dourada para branca, com o intuito de facilitar a leitura dos números a distância.
A informação retornou para a mídia cerca de dois dias antes do primeiro jogo do time, marcado para essa segunda, dia 15. O assessor de imprensa da Federação Egípcia, Mohamed Morad Thabet, quando questionado sobre a alteração das camisas, respondeu à ESPN que “há quatro meses, a FIFA notificou a Federação sobre a questão de não exibir as estrelas da Copa Africana de Nações na camisa da seleção durante as partidas da Copa do Mundo” e seguiu com a afirmação de que as providências necessárias já haviam sido tomadas antes dessa nova notificação.

[Imagem: Reprodução/Instagram/@puma_byintertex]
Diferente do Brasil, cujas cinco estrelas acima do brasão representam os títulos da Copa do Mundo, o Egito, que não passou da fase de grupos em nenhuma de suas três participações no mundial, leva consigo as estrelas da competição em que é o maior campeão continental. No entanto, essa decisão não segue as normas estabelecidas pela FIFA, visto que a Copa Africana de Nações é organizada pela Confederação Africana de Futebol (CAF). A única seleção permitida a usar estrelas de outro campeonato durante o evento esportivo é a do Uruguai, que utiliza duas de suas quatro estrelas para representar os ouros olímpicos de 1924 e 1928, os quais fazem parte de uma competição também organizada pela FIFA.

[Imagem: Reprodução/Instagram/@puma_byintertex]
A mudança solicitada à marca Puma e ao Egito não foi a única transformação de uniforme para a Copa do Mundo de 2026. A FIFA proíbe que as roupas carreguem mensagens políticas, o que também culminou na solicitação de mudança do traje da seleção do Haiti.
No canto inferior direito da camisa estava ilustrada a Batalha de Vertières (1803), a mais bem sucedida entre as organizadas por pessoas escravizadas e último confronto da Revolução Haitiana, que proporcionou a independência do Haiti em relação à França e a abolição da escravatura no país caribenho. Sob a perspectiva de que poderia haver algum mal entendido quanto a mensagem passada pela estampa, a organização do mundial concluiu que a menção ao conflito poderia desencadear possíveis relações com a política e ideologias atuais.

A Saeta, marca colombiana responsável pelo design do uniforme, afirmou em seu Instagram que discorda da visão da FIFA, mas que fez as alterações exigidas para que o uso do uniforme fosse viável no campeonato. Um porta-voz da Federação Haitiana de Futebol (FHF) se referiu ao motivo da alteração como uma “interpretação equivocada“. De acordo com o comunicado da Saeta, o modelo da camiseta foi pensado como uma homenagem à resiliência, ao orgulho e à história dos homens e mulheres que constroem o país.
Imagem de capa: Reprodução/Fotos Públicas
