Por Fernando Lucchi (fernandolucchi@usp.br) alemanha
Principal potência histórica do futebol europeu, a Seleção Alemã retorna à Copa do Mundo em busca de recuperar seu lugar no topo do futebol mundial. Apesar das dúvidas geradas por um ciclo marcado pela renovação do elenco e pela necessidade de superar os fantasmas das últimas campanhas, a equipe chega ao torneio como um dos grupos mais talentosos da competição.
Sem a pressão de figurar entre as principais favoritas ao título, a Alemanha desembarca na América do Norte com uma combinação promissora de jovens já consolidados na elite do futebol global e veteranos que seguem em alto nível, o que alimenta o sonho da conquista do pentacampeonato mundial.
Die Mannschaft nas Copas
Quando o assunto é Copa do Mundo, não há dúvidas de que a Seleção Alemã perde apenas para o Brasil entre as mais tradicionais no torneio. A Alemanha marcou presença em 20 dos 22 torneios mundiais e ficou de fora apenas em 1930, quando recusou o convite para a disputa no Uruguai, e em 1950, em decorrência de punições desportivas após a Segunda Guerra Mundial. A história dos alemães no torneio passa por diversas gerações e estilos de jogo: além de ser o país com mais finais disputadas, com oito jogos, também é o segundo maior campeão ao lado da Itália, com quatro conquistas. A equipe ainda possui o maior artilheiro de todas as Copas, Miroslav Klose.

O gol de Klose no 7 a 1 superou Ronaldo Fenômeno e sacramentou o alemão como maior artilheiro da história das Copas, com 16 tentos [Imagem: Reprodução/X/@DFB_Team]
A primeira conquista ocorreu contra a Seleção Húngara em 1954, ainda como Alemanha Ocidental, na decisão que ficou conhecida como “Milagre de Berna”. Enquanto a Hungria chegava àquela final com uma invencibilidade de 32 jogos, os alemães eram vistos como a grande zebra da edição e conseguiram uma vitória de virada por 3 a 2. Vinte anos depois, o segundo troféu veio em casa contra outra lendária equipe: a Holanda de Johan Cruyff. Apelidados de Laranja Mecânica, os holandeses que revolucionaram o futebol com seu estilo ofensivo de jogo foram anulados pela defesa alemã capitaneada por Franz Beckenbauer.
Já em 1990, Beckenbauer foi novamente campeão da Copa ao vencer a Argentina de Diego Maradona na final por 1 a 0, dessa vez como treinador, em reedição da final do mundial anterior. Esse mesmo duelo decisivo voltaria a ocorrer em 2014 e, pelo mesmo placar, a Seleção Alemã sagrou-se tetracampeã do mundo no Maracanã, apesar da partida mais emblemática desse torneio ter ocorrido na semifinal contra o Brasil, no emblemático 7 a 1 sofrido pela Seleção Brasileira. O título de 2014 também foi o primeiro e único vencido pela Alemanha após a reunificação do país.
Apesar da vasta tradição em Mundiais, as últimas Copas não resultaram em boas memórias para os alemães: a equipe foi eliminada ainda na fase de grupos nas duas últimas edições, um contraste marcante para uma das seleções mais vitoriosas da história do esporte. A campanha de 2018 foi particularmente traumática, pois além de terminar na última colocação de seu grupo, foi a segunda vez que a Alemanha caiu na fase inicial de uma Copa do Mundo — a primeira ocorreu em 1938. Esse cenário de dificuldades colocou dúvidas no ciclo alemão ao longo dos últimos quatro anos.
A era Nagelsmann na Alemanha
Mesmo com a eliminação na primeira fase do Mundial de 2022, a Federação Alemã de Futebol manteve o técnico Hansi Flick no cargo de técnico para os primeiros amistosos de 2023. Tal decisão, entretanto, seria rapidamente revogada. Após cinco jogos seguidos sem vencer contra seleções inferiores e com a goleada de 4 a 1 para o Japão em casa, Flick foi demitido.
O treinador escolhido para substituí-lo durante o ciclo foi Julian Nagelsmann, que assumiu a missão de comandar seu país mesmo com apenas 36 anos na época e uma passagem irregular no Bayern de Munique. O começo foi inconsistente, com algumas derrotas e empates inesperados, mas a melhora no desempenho e o estilo de jogo ainda ofensivo — embora menos “kamikaze” que o implementado anteriormente — já era notado nos amistosos.
O primeiro desafio do ciclo veio na Eurocopa de 2024, disputada em solo alemão. No grupo A, com Suíça, Hungria e Escócia, as Águias não decepcionaram e passaram em primeiro. Em seguida, eliminaram a Dinamarca, mas caíram na prorrogação das quartas de final para a Espanha, que viria a ser a grande campeã do torneio. A Euro marcou a despedida de grandes nomes da Seleção, como Manuel Neuer — que posteriormente retornou para a disputa da Copa de 2026 —, Toni Kroos e Thomas Müller, campeões mundiais em 2014, além do capitão Ilkay Gündogan.
O processo de renovação da Alemanha nesse ciclo foi iniciado na Nations League e, já sem os medalhões, o desempenho na fase de grupos foi convincente: invictos e líderes isolados da fase de grupos contra Holanda, Bósnia e Herzegovina e Hungria, as Águias enfrentaram a Itália no mata-mata e avançaram com vitória em Milão e um empate em Dortmund. Entretanto, nas semifinais, os alemães caíram para Portugal e foram novamente derrotados pela seleção campeã do torneio.
Em 2025, a Alemanha disputou as Eliminatórias da UEFA no grupo A, contra Eslováquia, Irlanda do Norte e Luxemburgo. Apesar da derrota sofrida contra os eslovacos na primeira rodada, os alemães se impuseram nos demais jogos como a grande potência do grupo, e a goleada por 6 a 0 contra os eslavos na última rodada carimbou o passaporte alemão para a disputa de sua vigésima primeira Copa do Mundo.
A convocação final da Alemanha
No dia 21 de maio, o treinador Julian Nagelsmann anunciou os 26 nomes que representarão a Alemanha na Copa do Mundo. Os convocados foram:
Goleiros
- Oliver Baumann (Hoffenheim, ALE)
- Manuel Neuer (Bayern, ALE)
- Alexander Nübel (Stuttgart, ALE)
Defensores
- Waldemar Anton (Borussia Dortmund, ALE)
- Nathaniel Brown (Eintracht Frankfurt, ALE)
- David Raum (RB Leipzig, ALE)
- Antonio Rüdiger (Real Madrid, ESP)
- Nico Schlotterbeck (Borussia Dortmund, ALE)
- Jonathan Tah (Bayern, ALE)
- Malick Thiaw (Newcastle, ING)
Meio-campistas
- Pascal Groß (Brighton, ING)
- Joshua Kimmich (Bayern, ALE)
- Felix Nmecha (Borussia Dortmund, ALE)
- Aleksandar Pavlovic (Bayern, ALE)
- Angelo Stiller (Stuttgart, ALE)
- Nadiem Amiri (Mainz 05, ALE)
- Leon Goretzka (Bayern, ALE)
- Lennart Karl* (Bayern, ALE)
- Jamal Musiala (Bayern, ALE)
- Florian Wirtz (Liverpool, ING)
*No dia 5 de junho, Karl foi cortado da seleção devido a uma ruptura no feixe muscular durante os treinos da Alemanha em Chicago. Foi substituído por Assan Ouédraogo (RB Leipzig, ALE).
Atacantes
- Maximilian Beier (Borussia Dortmund, ALE)
- Kai Havertz (Arsenal, ING)
- Jamie Leweling (Stuttgart, ALE)
- Leroy Sané (Galatasaray, TUR)
- Deniz Undav (Stuttgart, ALE)
- Nick Woltemade (Newcastle, ING)
A grande novidade da convocação foi o retorno de Manuel Neuer para o gol da Seleção Alemã. Aposentado das Águias desde a Euro de 2024, o lendário camisa 1 deve ser o titular da Alemanha mesmo após ter ficado tanto tempo sem vestir as cores da equipe.
Como joga a Alemanha?
Sob o comando de Julian Nagelsmann, a Alemanha manteve a identidade ofensiva que foi trabalhada desde o ciclo para a Copa de 2022, escalados num 4-2-3-1 no papel, que se torna um 3-2-4-1 na fase ofensiva e um 4-4-2 na defesa, com a fluidez posicional como princípio básico da filosofia de jogo do treinador. O controle do meio-campo e a exploração de espaços verticais nas alas também constroem a base de uma Seleção Alemã que busca a todo momento controlar a posse de bola em campo adversário.

Provável time titular da Alemanha (1), variação ofensiva (2) e defensiva (3) que a equipe deve apresentar ao longo da Copa [Arte: Fernando Lucchi/sharemytactics.com]
Na fase ofensiva do jogo, a Alemanha concentra seus esforços em sufocar seus adversários por meio do jogo vertical e da posse de bola, com o uso de Kimmich como um lateral que atua por dentro para distribuir os passes no ataque. Pavlovic tem a função de conector, enquanto Goretzka avança e se impõe fisicamente contra os defensores adversários.
Pelas pontas, Sané se torna um atacante móvel que costuma cortar para dentro para finalizar, enquanto Raum espaça o corredor esquerdo do campo para que Wirtz e Musiala, os craques da seleção, possam fazer o jogo de aproximação e criar espaços pelo meio. Havertz completa o esquema ofensivo das Águias como um centroavante que se movimenta para fora da área para ajudar na armação e gerar buracos e infiltrações na última linha dos rivais.
Já na defesa, a tendência é que a Alemanha implante o Gegenpressing, estilo de marcação popularizado por Jürgen Klopp que busca retomar a bola imediatamente após a perda, por meio da pressão alta no campo adversário de forma agressiva, com múltiplos jogadores que correm em direção aos adversários para forçar saídas ruins e chutes para longe. Porém, caso necessário, os alemães também possuem meios de recuar para um bloco mais baixo com marcação individual no campo defensivo, e até mesmo variar para esquemas mais fechados como o 5-3-2.
A fisicalidade apresentada pelo trio Raum, Schlotterbeck e Jonathan Tah, junto à experiência de Neuer no gol, permite que os alemães mantenham uma última linha defensiva forte, mas que corre muitos riscos em contra-ataques e nos momentos em que os adversários pressionam a equipe. Para assegurar uma defesa forte, a marcação alta dos alemães não pode falhar um lance sequer ao longo do Mundial.
Uma das principais dúvidas que a Seleção Alemã carrega nessa Copa do Mundo é sobre quem deve compor a dupla de volantes com Pavlovic. Goretzka representa uma opção em busca de maior força física e domínio nos duelos, enquanto Nmecha destaca-se caso Nagelsmann queira uma possibilidade de meia box-to-box e Angelo Stiller figura como mais um armador recuado que traz controle técnico e qualidade na construção. Além do meio, as duas últimas vagas no ataque alemão também levantam debate, com a possibilidade de Havertz atuar tanto na ponta-direita com Woltemade como centroavante, quanto como atacante centralizado com Sané aberto.
Fique de olho
Joshua Kimmich
Capitão do Bayern e da Alemanha, Kimmich não apenas é a referência técnica das Águias, mas também o grande líder da geração do país. Apesar de atuar como volante no clube, a tendência é que jogue como lateral-direito durante a Copa, função que desempenha desde que estreou pela Seleção Alemã em 2016.
Seu estilo de jogo pode ser resumido como um canivete suíço devido a sua polivalência tática, mas não se resume apenas a um jogador que transita entre a defesa e o meio: o atleta possui qualidade técnica que o coloca na elite mundial entre os passadores e criadores de jogada, é um especialista em lançamentos longos e passes verticais e, defensivamente, é muito combativo e intenso. Seja como um armador recuado ou um lateral de criação, Kimmich é o pilar que sustenta o estilo de jogo da Alemanha.

Kimmich foi contratado pelo Bayern em 2015 a pedido de Pep Guardiola, e foi lapidado para ser o sucessor direto do ídolo do clube Philipp Lahm [Imagem: Reprodução/Instagram/@joshua.kimmich]
Jamal Musiala e Florian Wirtz
Os dois grandes nomes ofensivos da Seleção Alemã são a dupla de meias do Bayern e do Liverpool. Apesar de serem as principais esperanças criativas da Alemanha, ambos tiveram temporadas irregulares, por diferentes motivos. Musiala sofreu uma lesão séria no Mundial de Clubes que o afastou dos gramados por cinco meses e, pouco tempo após voltar, se lesionou novamente contra a Atalanta, o que dificultou retomar seu ritmo de jogo para a Copa. Já Wirtz sofreu com a adaptação ao futebol inglês após se transferir do Bayer Leverkusen.
Mesmo com o mau momento recente, o alto nível dos dois craques de 23 anos se manteve constante ao longo do ciclo com a camisa alemã: Musiala foi o artilheiro da seleção na Eurocopa, enquanto Wirtz liderou em gols na Nations League.
Por mais que atuem na mesma faixa de campo, possuem estilos de jogo que se complementam: Musiala tem o apelido de “Bambi” devido à sua agilidade, e é um dos melhores dribladores do planeta. Com um controle corporal digno de um bailarino, Jamal ainda pode atuar pelo lado do campo ou como um segundo atacante, pisa constantemente na área para finalizar e é um bom criador de jogadas. Já Wirtz é um camisa dez clássico, do tipo que desmonta defesas com sua criatividade e movimentação no meio, além de ser um bom finalizador a média distância.

A chamada “Dupla dos Sonhos” da Alemanha por pouco não se concretizou, já que Musiala atuou pelas categorias de base da Seleção Inglesa antes de ser convocado pelos alemães em 2021 [Imagem: Reprodução/Instagram/@flowirtz]
Manuel Neuer
De volta ao gol alemão após dois anos, apresentar Manuel Neuer é desnecessário para qualquer amante do futebol. Afinal, se tornar adjetivo para as noites em que o goleiro adversário pega tudo contra seu time é um feito que eterniza o camisa um da Alemanha no imaginário popular brasileiro. Revolucionário da posição ao popularizar a saída de jogo com os pés e jogar quase como um zagueiro a mais na criação de jogadas, Neuer é um dos maiores goleiros da história do futebol e, aos 40 anos, disputará sua quinta Copa do Mundo.

Caso jogue duas partidas na Copa do Mundo, Neuer superará Hugo Lloris como goleiro com mais jogos disputados no torneio; o francês ultrapassou Neuer no mundial do Catar [Imagem: Reprodução/Instagram/@manuelneuer]
Projeção para a Copa do Mundo
A Alemanha está no grupo E da Copa do Mundo, que conta também com Costa do Marfim, Curaçao e Equador. A estreia alemã no torneio ocorre contra a Seleção Curaçauense no NRG Stadium, em Houston, às 14h (BRT) do dia 14 de junho.
Os adversários são fortes, mas por sua tradição e qualidade, a Alemanha chega à Copa do Mundo com boas condições de deixar para trás o trauma das eliminações precoces das últimas edições. O elenco rejuvenescido e o trabalho consistente de Julian Nagelsmann são os principais elementos, mas o novo formato do torneio, que permite o avanço de até três países por grupo, torna uma queda na primeira fase muito improvável. Nesse caso, cair novamente na fase de grupos se tornaria o maior vexame da história do futebol alemão.
A grande questão que as Águias levam para o Mundial é até onde os novos talentos da geração conseguem carregar a maior seleção do futebol europeu na Copa. Leve do peso de figurar entre as favoritas absolutas ao título, a Alemanha pode atuar com menos pressão do que em outras edições, e aposta na qualidade de seus jovens jogadores junto à experiência de alguns veteranos para reconstruir seu protagonismo no cenário internacional.
Com todos esses fatores, apesar do momento vivido e dos resultados recentes, a Alemanha ainda é uma das grandes potências do futebol mundial. Em Copas do Mundo, poucas seleções possuem um histórico tão consistente de crescimento ao longo do torneio e de desempenhos marcantes em jogos decisivos. Talvez as Águias não cheguem à América do Norte como a principal candidata ao título, mas quando os grandes momentos de pressão chegam, dificilmente existe um adversário que se sinta confortável ao encontrar os alemães do outro lado do campo.
*Imagem de capa: Reprodução/Instagram/@nickwoltemade
