Por Fernando Lucchi (fernandolucchi@usp.br) costa do marfim
Doze anos após a disputa de seu terceiro Mundial, a Costa do Marfim chega à América do Norte embalada. Com uma geração repleta de novos talentos, um ciclo que contou com título em casa, campanha sem derrotas nas Eliminatórias, e como cereja do bolo, uma surpreendente vitória contra a França antes da Copa, poucas seleções do mundo chegam tão confiantes à Copa do Mundo quanto os marfinenses.
O grande desafio dos elefantes é superar os feitos do time liderado por Drogba, que classificou a Costa do Marfim para suas primeiras Copas, mas não conseguiu levar a seleção para o mata-mata do torneio nessas ocasiões.
A Geração de Ouro da Costa do Marfim
Apesar de hoje ser uma das mais temidas seleções do futebol africano, nem sempre a Costa do Marfim figurou entre as principais potências regionais. A história dos elefantes começou a mudar em 1992, com a primeira conquista da Copa Africana de Nações (CAN), mas a verdadeira virada de chave veio apenas dez anos depois, quando Didier Drogba estreou pelos marfinenses, e acompanhado dele, uma geração de craques despontou não apenas pela seleção, mas também na elite do futebol mundial, como Yaya Touré, Kolo Touré e Abdul Kader Keita.
Sob o comando da chamada “Geração de Ouro”, a Costa do Marfim conseguiu conquistar sua primeira classificação para uma Copa do Mundo em 2006, no auge da guerra civil que assolou o país entre 2002 e 2007. Acima da conquista futebolística, a classificação serviu como palco para que Drogba, líder do elenco e herói nacional, se posicionasse pela união da nação e clamasse pelo fim da guerra, pedido esse que resultou em um cessar-fogo entre governo e guerrilheiros na semana seguinte.
Ainda sob a liderança de Drogba e Yaya Touré, mas com a adição de novos talentos como Salomon Kalou, Didier Zokora, Gervinho, Seydou Doumbia, Wilfried Bony e tantos outros, a Costa do Marfim ainda se classificou consecutivamente para as Copas de 2010 e 2014, e conquistou sua segunda CAN em 2015, o que eternizou, por meio do título, a era de ouro do futebol marfinense.
Apesar dos feitos inéditos e conquistas que colocaram os elefantes em projeção global, nos ciclos seguintes, por mais que ainda contasse com grandes jogadores em ascensão nos principais clubes europeus, a seleção não conseguiu retornar à Copa do Mundo sem seus principais líderes. Essa sina, que perseguiu as equipes dos ciclos de 2018 e 2022, entretanto, foi superada pela nova safra da Costa do Marfim, que dirigiu os elefantes de volta à disputa do Mundial em grande estilo.
Campeões em casa e classificação invicta
O ciclo marfinense começou sob o comando do técnico francês Jean-Louis Gasset. Com o país já classificado para a Copa Africana de Nações como país-sede, os primeiros meses de 2023 foram utilizados para promover testes e integrar jogadores jovens à seleção. No Grupo F das Eliminatórias da Confederação Africana de Futebol (CAF), que contava também com Burundi, Gabão, Gâmbia, Quênia e Seicheles, os elefantes eram os claros favoritos para conseguir a vaga direta para o Mundial, e começaram a disputa pela classificação com uma vitória por 9 a 0 contra os seichelenses.
Em 2024, a Costa do Marfim disputou a Copa Africana de Nações em casa, e apesar da confiança promovida por serem os mandantes, a fase de grupos foi ruim: apenas uma vitória em três jogos, que incluiu uma derrota no clássico regional contra a Nigéria, e uma goleada sofrida por 4 a 0 contra a Guiné Equatorial. Apesar da classificação para o mata-mata como um dos melhores terceiros colocados, o resultado insatisfatório nos grupos resultou na demissão de Gasset, e Emerse Faé, ex-jogador da seleção marfinense, assumiu de forma interina.
Na fase final, Faé mudou os ânimos da equipe, e a vitória nos pênaltis contra Senegal classificou a seleção para as quartas. Na sequência, os triunfos sobre Mali e a República Democrática do Congo garantiram a final em casa, numa revanche contra a Seleção Nigeriana. Embora a Nigéria tenha aberto o placar, Franck Kessié empatou o jogo no segundo tempo, e Sebastién Haller sacramentou a virada e o tricampeonato marfinense em Abidjan.
Com o título africano, Faé foi efetivado como técnico principal da Costa do Marfim para o resto do ciclo e não decepcionou, uma vez que conseguiu vitórias importantes tanto nas Eliminatórias da CAF quanto no torneio qualificatório para a CAN de 2025/26, no qual se classificou sem dificuldades.
Em 2025, os marfinenses garantiram a vaga direta para a Copa do Mundo na última rodada da fase de grupos após um triunfo contra o Quênia em casa, em uma campanha dominante: oito vitórias e dois empates em dez jogos, sem sofrer nenhum gol ao longo das Eliminatórias e com o segundo melhor ataque do qualificatório africano.
O último torneio marfinense no ciclo foi a disputa da Copa Africana de 2025/26, dessa vez, em Marrocos. Apesar da classificação em primeiro lugar de seu grupo, a jornada dessa vez foi mais curta, e os marfinenses foram eliminados para o Egito nas quartas de final. Nos amistosos pré-Copa, entretanto, os elefantes surpreenderam o mundo ao vencerem a equipe titular da Seleção Francesa por 2 a 1, o que atraiu ainda mais atenção para a Costa do Marfim antes do Mundial.
A convocação final
No dia 15 de maio, o treinador Emerse Faé anunciou os 26 escolhidos para jogar pela Costa do Marfim na Copa do Mundo. Os convocados foram:
Goleiros
- Yahia Fofana (Çaykur Rizespor, TUR)
- Mohamed Koné (Charleroi, BEL)
- Alban Lafont (Panathinaikos, GRE)
Defensores
- Emmanuel Agbadou (Besiktas, TUR)
- Christopher Operi (Basaksehir, TUR)
- Ousmane Diomande (Sporting, POR)
- Guéla Doué (Strasbourg, FRA)
- Ghislain Konan (Gil Vicente, POR)
- Odilon Kossounou (Atalanta, ITA)
- Wilfried Singo (Galatasaray, TUR)
Meio-campistas
- Seko Fofana (Porto, POR)
- Christ Inao Oulaï (Trabzonspor, TUR)
- Franck Kessié (Al-Ahli, SAU)
- Ibrahim Sangaré (Nottingham Forest, ING)
- Jean Michaël Seri (Maribor, SVN)
Atacantes
- Parfait Guiagon (Charleroi, BEL)
- Simon Adingra (Monaco, FRA)
- Ange-Yoan Bonny (Inter, ITA)
- Amad Diallo (Manchester United, ING)
- Oumar Diakité (Cercle Brugge, BEL)
- Yan Diomande (RB Leipzig, ALE)
- Evann Guessand (Crystal Palace, ING)
- Nicolas Pépé (Villarreal, ESP)
- Bazoumana Touré (Hoffenheim, ALE)
- Elye Wahi (Nice, FRA)
A principal surpresa da convocação foi a chegada de Ange-Yoan Bonny, centroavante da Internazionale, que fez sua estreia pelos elefantes contra a França, seu país de nascimento e que representou nas categorias de base, no último dia 4. Além dele, a ausência do veterano Sébastien Haller em prol dos jovens Oumar Diakité e Elye Wahi foi outro destaque. Outro jogador que ficou de fora foi Clément Akpa, que mesmo convocado na lista original, foi cortado devido a uma lesão no adutor, e substituído por Christopher Operi.
Como joga a Costa do Marfim?
Desde a chegada de Faé, a Seleção Marfinense adotou um sistema tático que busca potencializar o jogo pelas pontas, que tem o 4-3-3 como esquema básico e o 4-2-3-1 como uma variante também utilizada ao longo do ciclo. No nível de enfrentamento continental, a escolha do técnico foi montar um time capaz de se adaptar ao adversário, mas que, em geral, prioriza manter a posse de bola e conseguir transições em velocidade pelos espaços.

Provável time titular da Costa do Marfim (à esquerda) e variação defensiva (à direita) que a equipe deve apresentar ao longo da Copa [Arte: Fernando Lucchi/sharemytactics.com]
O preceito ofensivo de jogo da Costa do Marfim gira principalmente em torno de encontrar os grandes destaques da seleção pelos lados, Diomande e Diallo. Como o ataque funciona em torno dos dois, o lateral-direito Doué ganha liberdade para atacar os espaços criados por Amad no setor de ataque. Pela esquerda, é o meia Inao Oulaï quem recebe o aval criativo para jogar quase como um quarto atacante ao centro, uma vez que é o responsável pela armação e conexão do ataque. Kessié, por sua vez, complementa o sistema ofensivo ao chegar por trás como um finalizador. Apesar do centroavante ainda não estar definido, com Wahi e Bonny como alternativas com características diferentes, Guessand é o principal nome, e, nesse caso, utiliza da mobilidade e velocidade para aproveitar as brechas na marcação, atraída pelos pontas.
Na defesa, os marfinenses se posicionam num 4-5-1 em bloco médio, e preferem evitar a pressão alta no campo adversário. Sangaré atua como principal marcador da linha de meio-campo devido ao seu porte alto e inteligência nos duelos defensivos, o que resulta numa proteção segura à última linha de defesa, que é instruída a avançar e marcar de forma agressiva no momento em que o adversário consegue encontrar espaços no meio-campo. Apesar da medida funcionar pelas características dos zagueiros Ndicka e Kossounou, a combatividade mais forte também resulta na abertura de buracos na marcação, que geram perigo ao goleiro Fofana.
Fique de olho
Yan Diomande e Amad Diallo
Se a Seleção Marfinense chega em alto nível para a Copa de 2026, muito se passa pelo nível de seus dois pontas, que formam uma das duplas mais promissoras do futebol mundial. Enquanto Amad, de 23 anos, teve uma trajetória de amadurecimento contínuo na elite do futebol inglês até se tornar um dos principais jogadores do Manchester United, o jovem Diomande, de 19 anos, é um fenômeno raro: proveniente de uma academia de futebol para estudantes do ensino médio nos Estados Unidos, estreou profissionalmente em março de 2025, pelo Leganés, contra o Real Madrid, e após somente dez jogos na La Liga, foi vendido para o Leipzig. No clube alemão, Yan explodiu rapidamente, se tornou titular, acumulou atuações de nível estelar e foi eleito o estreante da temporada na Bundesliga.
Apesar de jogarem nas pontas, cada um carrega características diferentes: Amad gera dinamismo quando atua quase como um meia aberto, pois possui uma visão de jogo acima da média de sua posição e controla bem a bola no ataque, já que sabe encontrar o momento de buscar um cruzamento na linha de fundo ou cortar para dentro e finalizar. Por outro lado, Diomande é um dos jogadores mais velozes e verticais do planeta. Com uma forma de jogar extremamente imprevisível, devido a sua capacidade de drible em espaços curtos e uso das duas pernas para finalizar e criar jogadas, Yan sem dúvidas é um dos jogadores mais divertidos para se acompanhar na Copa do Mundo de 2026.

Enquanto Diallo já é parte integral do elenco do Manchester United desde 2023, Diomande é um dos jogadores mais cobiçados por gigantes europeus para essa janela de transferências [Imagem: Reprodução/Instagram/@yandiomande]
Franck Kessié
Jogador que atua há mais tempo com a camisa marfinense entre os convocados, Kessié é o capitão e principal meio-campista do país desde a aposentadoria de Yaya Touré. Campeão italiano com o Milan em 2022 e da La Liga com o Barcelona em 2023, o atleta do Al-Ahli se destaca como um box-to-box moderno, com qualidade para pisar na área ou finalizar de média distância, e é sólido defensivamente, mas pode também atuar como volante de contenção quando necessário. Possui muita imposição física e resistência, que o ajudam a se manter em boa forma durante os noventa minutos de jogo. No futebol saudita, Kessié passou a ganhar ainda mais protagonismo ofensivo e conseguiu registrar duas temporadas com mais de dez gols marcados.

Kessié foi campeão e eleito o melhor jogador da Champions League Asiática de 2025/26 [Imagem: Reprodução/Instagram/@franckkessie]
Guéla Doué
O grande destaque da vitória marfinense que encerrou a sequência de 364 dias sem perder da Seleção Francesa, Guéla Doué é um dos principais jogadores da sólida linha defensiva da Costa do Marfim. Apesar de suas contribuições no jogo contra a França terem sido pelo ataque, com um gol e uma assistência, Doué é também um defensor versátil, que, apesar de ser titular na lateral-direita, pode ser o terceiro zagueiro de uma linha defensiva mais fechada ou até mesmo um volante de contenção. Com 1,87m de altura, muita velocidade e capacidade de marcação, ele é combativo e forte nos duelos individuais. No ataque, usa da explosão física para superar marcadores e ganhar profundidade pela ponta, mas também aparece constantemente como elemento surpresa para finalizar por dentro, como ocorreu no gol marcado contra os franceses.

Se o sobrenome soa familiar, não é por acaso: Guéla é o irmão mais velho de Desiré Doué, que jogará a Copa pela França [Imagem: Reprodução/Instagram/@guela.doue]
Projeção para a Copa do Mundo
No Grupo E da Copa, a Costa do Marfim enfrenta o Equador na estreia, e depois as seleções da Alemanha e de Curaçao. A primeira partida no retorno ao torneio ocorre neste domingo (14), às 20 horas (BRT). O estádio que recebe o jogo é o Lincoln Financial Field, na Filadélfia.
Apesar do grupo na Copa ser nivelado por cima, a Seleção Marfinense tem todos os motivos para acreditar em uma primeira ida ao mata-mata e, quem sabe, sonhar com ainda mais. A geração conta com talentos individuais extraordinários da defesa ao ataque, que, unidos por um trabalho técnico extremamente competente ao longo do ciclo, não surpreenderiam caso, ao fim da competição, voltassem da América do Norte como a grande zebra do Mundial.
*Imagem de capa: Reprodução/X/@equipenatciv
