Home Corpo e Mente Um ano e meio desde o início da pandemia, profissionais de saúde seguem sem suporte para cuidar da própria saúde mental
Um ano e meio desde o início da pandemia, profissionais de saúde seguem sem suporte para cuidar da própria saúde mental

Enquanto 81,6% dos trabalhadores revelaram efeitos negativos na saúde mental, apenas 30% afirmam ter recebido algum tipo de apoio.

Corpo e Mente
01 out 2021 | Por Mariana Carneiro (marianacarneiro@usp.br)

Relatório intitulado “A pandemia de covid-19 e os(as) profissionais de saúde pública na linha de frente” publicado nesta quarta-feira (29) revela que, mesmo um ano e meio desde o início da pandemia no Brasil, profissionais de saúde da linha de frente continuam com sua saúde mental comprometida. Fatores como a falta de treinamento e suporte para lidar com a covid-19 agravam a sensação de medo que, segundo o estudo, atinge 83,4% dos trabalhadores. Os dados ainda revelam uma mudança positiva no perfil dos profissionais em relação à aderência às vacinas.

A pesquisa, que faz parte de uma série de relatórios produzidos pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) em colaboração com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), identificou que 81,6% dos trabalhadores sentiram que sua saúde mental foi afetada negativamente pela pandemia. Em contraposição, apenas 30% dos respondentes afirmaram ter recebido algum tipo de apoio para lidar com o problema, conta Gabriela Lotta, coordenadora do Núcleo de Estudos da Burocracia (NEB) da FGV e autora do estudo. “O que temos visto são profissionais sobrecarregados, abandonados pelo governo, sem acesso ao equipamento e treinamento necessários e, como consequência, com diversos problemas de saúde mental”, destaca a pesquisadora. 

Emoções negativas durante o trabalho também prevalecem entre os profissionais de saúde, com destaque ao estresse/ansiedade (73.5%), medo (60.1%), cansaço (66,8%) e tristeza (56,6%). O sentimento de apreensão preponderante entre o grupo pode estar relacionado ao alto percentual de profissionais infectados pelo coronavírus: 40,3% dos respondentes disseram ter contraído covid-19, enquanto 97,5% disseram conhecer colegas de trabalho com suspeita ou diagnosticados com a doença.

A pesquisa coletou dados de 935 voluntários entre os dias 1º e 31 de julho de 2021. Médicos, enfermeiros, agentes comunitários e outros profissionais da saúde responderam a um questionário online que visava compreender suas vivências na pandemia e possíveis mudanças em suas práticas de trabalho. 

Gabriela aponta os limites da metodologia utilizada: “No cenário da pandemia, optamos pela aplicação de um questionário online por uma questão de segurança. Dessa forma, não podemos dizer que os resultados se aplicam a todos os profissionais de saúde no Brasil, e sim apenas aos que responderam”. No entanto, para a pesquisadora, a urgência por resultados valida o uso de uma metodologia menos robusta. “Os dados obtidos pelo estudo não apenas pautam o debate em relação às condições de trabalho de tais profissionais, mas também assumem uma função de registro histórico do período em que vivemos”, afirma. 

 

Saúde mental: desigualdades nos resultados

Um ano e meio após o início da pandemia, 49,2% dos respondentes ainda se sentem despreparados para lidar com a crise, aponta o estudo. Tal dado também explicitou a existência de desigualdades entre as profissões: agentes comunitários de saúde demonstraram-se mais despreparados em relação a médicos e enfermeiros. Não coincidentemente, o grupo recebeu menos treinamentos para combater a covid-19.

 

Saúde mental: Gráfico sobre treinamentos relacionados à pandemia, recebidos ou não por profissionais de saúde, segundo profissão

[Reprodução/”A pandemia de COVID-19 e (os)as profissionais de saúde pública na linha de frente”, 5ª fase (NEB-FGV/Fiocruz)]

 

O relatório ainda promove uma análise da situação dos profissionais por um recorte de gênero, visto que as mulheres representam mais de 70% da força de trabalho na área da saúde. “Com o fechamento das escolas e as crianças estudando em casa, a pandemia afetou as mulheres de uma maneira mais forte. Elas acumulam horas extras não apenas no trabalho hospitalar, mas também no doméstico, o que leva a uma sobrecarga mental enorme”, explica Gabriela. O estudo destaca que, devido à divisão sexual do trabalho na sociedade, afazeres domésticos ainda são confiados principalmente às mulheres. Entre os 825 relatos coletados sobre o tópico, o cansaço pela dupla jornada de trabalho apresentou-se como uma tendência entre as profissionais. 

 

O que mudou em um ano e meio de pandemia?

Segundo a pesquisadora, os resultados divulgados nesta quarta-feira apresentam duas novidades em relação às etapas anteriores do estudo. A primeira é um sentimento de exaustão pelo acúmulo de um tipo de serviço que não existia no início da pandemia — a vacinação. “Desde fevereiro, a campanha de vacinação em massa tem mobilizado principalmente os profissionais da enfermagem e agentes comunitários de saúde, o que deixa os médicos desamparados. Como resultado, temos uma desagregação cada vez mais complexa das equipes médicas, o que não acontecia antes”, explica Gabriela. 

A segunda mudança, por sua vez, foi percebida como algo positivo pelo grupo de pesquisadores. Gabriela conta que, nas primeiras rodadas da pesquisa, um terço dos voluntários apresentaram um perfil negacionista em relação à ciência. Os resultados atuais, no entanto, mostram que 78,6% dos trabalhadores da linha de frente reconhecem a vacina como método mais efetivo de combate ao vírus, e 76,5% são contra a utilização de medicamentos sem comprovação científica.

A pesquisadora também destaca a estagnação de alguns resultados: “Alguns indicadores melhoraram ao longo do tempo, como o acesso dos profissionais a equipamentos de proteção individual, mas a maioria se manteve igual. As porcentagens de medo, falta de treinamento e saúde mental abalada estão estáveis desde a primeira rodada do questionário, ainda em abril de 2020”.

 

*Imagem de capa: [Reprodução: Agência Brasília/Flickr]

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