Home Controle Remoto Antigamente é que era bom?
Antigamente é que era bom?

Como internautas idealizam períodos da história e o que há por trás do mito de que o passado é sempre melhor

Controle Remoto
28 mar 2022 | Por Ana Paula Medeiros (anapaulasmedeiros@usp.br)

De acordo com a BBC, a palavra “nostalgia” começou a ser usada para se referir a uma espécie de enfermidade física. Para os marinheiros do século 18, a nostalgia era um mal-estar que sentiam quando estavam há muito tempo fora de casa e tinha relação com o desejo de voltar. No significado popular de hoje, a nostalgia se refere ao estado de saudade e tristeza originado pela lembrança de um momento do passado. Como um excesso de nostalgia, o saudosismo já indica uma valorização exagerada desse passado e até uma negação do presente. 

A música “1999”, dos cantores Charli XCX e Troye Sivan, relembra a vida ou uma pequena parte dela como era há 20 anos antes de seu lançamento, em 2019. A letra narra uma nostalgia acerca da infância dos dois artistas e comenta aspectos marcantes do ano 1999, como o canal de televisão MTV, os CDS, que agora deram lugar aos serviços de streaming, e a escassez dos celulares itens indispensáveis nos dias atuais. No clipe, referências a músicas, filmes e jogos antigos tomam as memórias de quem lhe assiste e afloram sentimentos acerca de uma era que já passou. 

Na rede social TikTok, alguns usuários compartilham vídeos antigos de pessoas se divertindo. Nas legendas, “Como era viver nos anos X” é uma abordagem comum. Nos comentários, é recorrente ver jovens que nasceram após essas décadas dizendo “As pessoas pareciam muito mais felizes nessa época” ou “Nasci na época errada”.  

A onda de adolescentes que gostariam de ter vivido determinada era da história é grande a ponto de virar uma tendência na plataforma. Vídeos que tentam reproduzir a vida nos anos 80, por exemplo, contam com um cenário de um quarto adolescente repleto de pôsteres na parede, roupas coloridas e filtros que simulam câmeras analógicas. Tudo isso junto a músicas de fundo que variam de “Girls Just Want To Have Fun” a “Everybody Wants To Rule The World”.  

  

 

Algumas pessoas ultrapassam o digital e tentam viver de fato como os indivíduos viviam em anos anteriores. Em uma entrevista ao canal de YouTube do New York Post, o casal Sarah e Gabriel Chrisman, de Washington, nos Estados Unidos, conta a sua paixão pela Era Vitoriana, fator que se reflete em suas roupas, seus empregos e na casa onde moram, a qual possui apenas objetos herdados do século 19. Além da estética, eles dizem que gostam do período por ter sido “um tempo caracterizado pelo otimismo”.   

Tanto os sentimentos nostálgicos e saudosos acerca de uma realidade vivida quanto a curiosidade e a romantização de uma experiência não vivenciada se juntam ao mito de que o passado era melhor. Esse fenômeno é explicado por fatores como memória seletiva, apego à sua realidade individual e idealização a partir do que a indústria cultural produz. 

Segundo Filipe Figueiredo, professor, historiador e autor do podcast “Xadrez Verbal”, a história, enquanto uma análise dos fatos baseada na pesquisa metodológica, se difere da memória, que é uma visão do passado guiada pela visão atual de uma pessoa ou de um grupo. Sobre isso, o olhar de alguém sobre o passado é limitado — já que não é possível ter um vivência completa de um período histórico — e seletivo — visto que a memória tende a maquiar a história e a deixar transparecer mais aquilo que foi benéfico para o indivíduo.  

A Era Vitoriana está longe de ser considerada uma época realmente otimista, dado o seu contexto social. Mas é possível se apegar aos seus pontos de qualidade afetiva e mascarar seus pontos negativos. Ao se recordar de um passado seu, a sua memória inclina-se a enaltecer os acontecimentos bons em detrimento dos ruins. Tanto é que um período desagradável pode, com o tempo, ser tomado por sentimentos de nostalgia, ainda que ele possua apenas pontuais momentos felizes. 

 

Sarah e Gabriel Chrisman em um passeio de bicicleta pela vizinhança. [Imagem: Reprodução/Youtube/New York Post]

Sarah e Gabriel Chrisman em um passeio de bicicleta pela vizinhança. [Imagem: Reprodução/Youtube/New York Post]

 

A indústria cultural também tem peso nisso. Séries, filmes, músicas, livros e produções artísticas no geral podem criar um cenário romântico de uma época ou ainda servir como parâmetro para comparações entre a qualidade da arte do passado e da atualidade o que tem ligação com a memória afetiva individual. 

A cultura de um tempo é também filtrada com o passar dos anos, e dessa forma, o que mais marcou a sociedade em determinado momento é lembrado e o que menos marcou é esquecido. Quando olhamos para os legados artísticos de uma década passada, chega até nós o que possuiu maior relevância naqueles anos. Ao recordarmos de produções culturais de períodos do qual fizemos parte, lembramos delas com afeto, pois é comum vincularmos a arte às emoções positivas que tínhamos em situações específicas da vida, nas quais estávamos consumindo tais obras.

 

Kodak, Fita Cassete e DVD 

As câmeras fotográficas analógicas estão voltando para a rotina das gerações mais novas, e no Instagram, é possível ver perfis inteiramente constituídos por fotos feitas por filme, com uma pegada mais retrô. Dentro do próprio aplicativo, no início de seu lançamento, muitos internautas utilizavam filtros que continham a estética das fotos tiradas em décadas anteriores

Em contraste à qualidade das câmeras dos últimos celulares lançados no mercado, as fotos tiradas em câmeras do passado às vezes contam com “defeitinhos” no processamento da imagem que conferem um visual diferenciado aos feeds das redes sociais. Alguns aplicativos ainda tentam simular as fotos tiradas por essas câmeras, como as Polaroids, uma das grandes aclamadas pelos usuários do Instagram. No TikTok, outra trend entre os jovens é mostrar fotos antigas de seus pais feitas com câmeras analógicas, e nesse contexto, criar uma narrativa romântica em cima das cenas.    

  

@yomnatarek000 #80s #japan#hot#fashon#fyp ♬ 90s Aesthetic – Day Desiree

Daniel Ribeiro, cineasta e diretor do filme “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014)” revelou em entrevista ao Sala 33 que para a composição da identidade visual de uma obra audiovisual que se passa em outra época, as referências das fotos feitas durante aquele período são utilizadas para conectar o espectador com a época abordada: “Quando a gente vê uma foto, a gente tem essa memória ‘Ah, tá, os anos 60 são assim’. Mesmo que a vida não fosse daquele jeito, como o registro que a gente tem hoje é daquele modo, quando a gente vai recriar isso usamos a referência da imagem que ficou do passado através das fotos”.       

Com a ajuda da fotografia, alguns clichês, de tão repetidos, ficam na cabeça dos indivíduos e ajudam a criar uma imagem certa de épocas, grupos de pessoas ou lugares. As discotecas dos anos 70, os patins dos anos 80,  a mulher de batom vermelho, boina e cigarro na mão e o homem de cabelo raspado, regata branca e cordão de prata são exemplos disso. Os estereótipos são formados em cima de elementos que realmente marcaram as pessoas, como o movimento hippie nos anos 60, que de tão impactante é até hoje referenciado em séries, filmes e vídeos informativos sobre essa década.  

O diretor percebe que os espectadores podem ter uma visão tendenciosa sobre o mundo ao assistirem determinadas obras: “Quem tem o domínio consegue de fato utilizar o cinema e o audiovisual como um todo para estabelecer certos padrões e fragmentações da realidade”. Ele conta que os clichês são utilizados por serem fáceis de serem trabalhados, já que funcionam muito bem para contextualizar as cenas: “Você sabe que se você caracterizar os personagens daquele jeito você automaticamente traz um monte de referência que a pessoa já tem. Então você não precisa construir, explicar. Às vezes você bota um figurino, bota uma música, o espectador já entendeu o que está acontecendo”.   

 Nesse sentido, o figurino é um dos aspectos mais importantes de ser levado em consideração ao trabalhar em um projeto que faz alusão a uma época do passado. A sua relevância é tanta que algumas pessoas desejam ter nascido em séculos anteriores apenas para poderem usar determinadas roupas. O visual de uma época pode ser o maior fator que desperta um sentimento saudoso de alguém, ao ponto do indivíduo minimizar outros fatos que estavam ocorrendo no mundo, por piores que fossem.  

 

Exemplo de post das redes sociais pautado nos sintomas de uma “alma antiga”. [Imagem: Reprodução/Facebook]

Exemplo de post das redes sociais pautado nos sintomas de uma “alma antiga”. [Imagem: Reprodução/Facebook]

Outro ponto é a construção de épocas da história baseada na retratação de uma parcela minoritária da sociedade. “A gente consome a realidade branca e rica americana”, expõe o cineasta. Tal representação que na verdade representa poucos explora o desejo do espectador de fazer parte daquela realidade por ele vista nas telas. Daniel Ribeiro vê que isso vem do escapismo da própria vida permitido pelo entretenimento e da intenção dos produtores e dos investidores do filme: “Quanto menos você questionar as coisas e [quanto menos] retratar uma realidade que a gente não quer ver, é mais dinheiro que você ganha”.  

 

Vinil, CD e Mp3 

A música é uma das mais antigas formas de manifestação cultural da humanidade, e por isso, é evidente que passou por várias mudanças ao longo do tempo. Há quem ache que música de qualidade é apenas a música instrumental “clássica”, e há quem prefira a batida animada do funk brasileiro atual.   

A forma de se consumir música também está em constante transformação. Com o passar dos anos, surgiram os discos de Vinil que viraram artigos “vintage” para colecionadores — e os CDS. Nos anos 2000, os MP Players ganharam o mercado, e agora os serviços de streaming, como YouTube, Spotify e Deezer, abriram um leque de possibilidades para músicas variadas ganharem destaque.

Com a popularização do streaming, mais artistas hoje conseguem alcançar o sucesso que antes era monopolizado pelas rádios e gravadoras  assim, inúmeras obras são feitas para todos os gostos do grande público. A partir disso, a mídia bombardeia músicas de consumo rápido, e os sucessos têm seus dias contados para caírem no esquecimento. Um exemplo disso são os hits de verão, popularizados no Carnaval e pouco reproduzidos no resto do ano.   

É comum ver trabalhos recentes que tenham semelhanças com outros já consagrados, fator que ajuda na concepção de que as músicas da atualidade não são originais. Para o produtor musical Marcelo Souza, a música não perdeu a qualidade, mas pela facilidade de compartilhar timbres, samples e trabalhos no geral, esse senso é criado: “Antes você estava inventando e testando alguma coisa, tanto na parte de escrever música, quanto na captação desse som. Você tinha que arriscar mais”. “Hoje está muito mais fácil, acaba ficando igual. Você compra um banco de loop e qualquer um pode usar. Aí tem que ter um outro tipo de criatividade para não ficar muito parecido”, complementa.   

O uso de fatores técnicos é comum para desmerecer a música de hoje, mesmo por quem não é especialista no assunto. O funk é um dos estilos musicais mais julgados no que se refere à quantidade de acordes, riqueza harmônica e melódica e originalidade. Fora o apelo preconceituoso para o vocabulário, que se reflete a partir do contexto social em que o funk se insere. Em um vídeo para o canal do YouTube Mescla, Thiago de Souza, professor e pesquisador de música, defende que o funk, além de ritmo, melodia e harmonia, possui grande complexidade de timbres. Ele também atenta para outros gêneros que sofreram preconceitos, como o rap e o samba, pela condenação ao presente e pela dificuldade de aceitação das mudanças sociais.

 

A música “Bum Bum Tam Tam” do Mc Fioti explora dois campos considerados opostos da música: o funk e a música clássica instrumental. [Imagem: Reprodução/Youtube]

A música “Bum Bum Tam Tam” do Mc Fioti explora dois campos considerados opostos da música: o funk e a música clássica instrumental. [Imagem: Reprodução/Youtube]

Os períodos da música não são apenas associados a estilos musicais e a hit songs, mas também a artistas que fizeram sucesso mundial. Os anos 40 e 50 são memórias da popularização do Rock and Roll, gênero que posteriormente foi protagonizado por Elvis Presley. Nos anos 60, os Beatles revolucionaram o sentido de idolatria com o fenômeno da beatlemania. Já na década de 80, artistas como Michael Jackson, Madonna e Queen dominavam as rádios e hoje suas carreiras são legados para as novas gerações.  

O peso desses nomes pode criar uma concepção de que esses foram os últimos artistas “de verdade”, no sentido de criarem músicas marcantes e de terem uma presença para além da época em que estavam no auge.   

Apesar da rápida troca de informação e de cenários que a internet possibilita hoje, Souza acha que ainda é possível que um artista atual consiga chegar no mesmo patamar que os já consagrados na história. Em sua visão, o que faz um artista ser marcante é a sua capacidade de tocar o outro com a sua arte, algo que não é explicado apenas pela técnica do trabalho e que independe de época. “Hoje está mais fácil, mas criatividade sempre vai ter e sempre vai aparecer um fenômeno que vai passar de geração em geração”, declara.   

O produtor ainda reconhece que o paradigma de que “a música de antigamente é que era boa” é uma construção: “eu acho que cada época tem a sua magia. E aquela que tocou você, em algum momento da sua vida, vai ser a melhor para você. Vai passar décadas e a gente vai escutar que a música do passado é melhor que a atual”.    

Sala 33
O Sala33 é o site de cultura da Jornalismo Júnior, que trata de diversos aspectos da percepção cultural e engloba música, séries, arte, mídia e tecnologia. Incentivamos abordagens plurais e diferentes maneiras de sentir e compartilhar cultura.
VOLTAR PARA HOME
COMENTÁRIOS
Izidória S.Sousa
Fiquei muito nostálgica agora ao ler essa matéria da Ana Paula!!!! Impressionante como essa menina consegue escrever com tanta profundidade 👏👏👏👏🥰🥰
03 abr 2022
 
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Nome*
E-mail*
Facebook
Comentário*